O episódio de tortura cometido por justiceiros no Rio reacendeu, pela enésima vez, a velha rixa entre defensores dos direitos humanos e a turma do “direitos humanos para humanos direitos”. Quando a âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, veio a público dizer que a ação dos torturadores era compreensível, na ótica de uma tal “legítima defesa coletiva”, as redes sociais se tornaram palco de uma verdadeira guerra virtual entre os que concordavam e os que discordavam com a opinião da polêmica jornalista.
Nesse imbróglio, todos falaram, ninguém ouviu e, principalmente, ninguém se entendeu. E nós, defensores dos direitos humanos, temos parcela de culpa nisso.
Apesar do belo e valoroso trabalho feito por diversas organizações de Direitos Humanos, da produção de magníficas peças acadêmicas sobre o tema desenvolvidas em nossas universidades, e de todo o pessoal extremamente qualificado que milita em defesa dos direitos do homem, nós temos um grande problema: não falamos a língua dos “coxinhas”, que, no Brasil e no mundo, são a maioria das pessoas (temos o mesmo problema do PSDB, que não consegue se fazer entender pelos mais pobres de jeito nenhum).
Por décadas, figuras carismáticas como Alborghetti, Gil Gomes, Datena, Marcelo Rezende e Ratinho, fora seus semelhantes em programas regionais, têm prestado um desserviço ao Brasil, qual seja, vender ao povo a ideia de que direitos humanos servem apenas para bandidos.
O trabalho desses formadores de opinião é nefasto: muitas vezes, e até de forma muito mais clara do que no caso da Sheherazade, cometeram o delito de incitação ao crime, pregando, via TV aberta, que bandidos, marginais e presidiários mereceriam ser torturados, morrer etc.
Como eles puderam trabalhar em paz, como nunca tiveram uma resposta à altura aos absurdos ditos por eles, criou-se, infelizmente, certo consenso na população em geral de que direitos humanos seriam destinados apenas para bandidos.
Enquanto esse falso consenso não for afastado, ou minimamente questionado, sinto dizer, o debate sobre segurança pública não ganhará em qualidade e os abusos e as injustiças continuarão sendo a regra neste país.
Mas, afinal, como combater esse falso consenso? Saindo das universidades e dos círculos fechados de ativistas e falar diretamente com os “coxinhas” sobre Direitos Humanos na “língua” deles.
Nós deveríamos sair das academias e discutir em programas de TV, do Roda Viva ao Programa do Ratinho. Estar em todos os lugares, como bons pregadores da “Palavra de Deus”, “evangelizando” as pessoas, levando-lhes as boas novas da ONU e da nossa Constituição Federal.
Para falar com os “coxinhas”, esqueçam toda a teoria, das três gerações de direitos, dos crimes de lesa humanidade e todo esse interessante e rico “blá blá blá” teórico: eles só começarão a dar valor aos Direitos Humanos se demostrarmos a sua aplicação prática nas vidas deles.
Usem os próprios clichês deles para dissuadi-los: perguntem se eles gostariam de ter um filho que, por furtar umas canecas iradas de um restaurante alemão, fosse amarrado nu a um poste por membros da “Liga da Justiça em Defesa das Canecas e Copos”, depois de ser espancado para aprender a “lição”.
Adotem um discurso com palavras chulas, fáceis e chocantes! Façam-se entender, sejam pragmáticos! Expliquem, por exemplo, que os Direitos Humanos garantem ao cidadão de ‘bem’ preso injustamente, que ele não será jogado numa cela fedida, com 20 prisioneiros subindo pelas paredes, que usarão e abusarão do seu orifício anal por dias, e que ainda lhe darão de brinde
o vírus da HIV.
Se vocês quiserem ser ouvidos, os cus deles são ótimos instrumentos para tentar quebrar essa convenção burra de que DH são somente para bandidos. Afinal, quem tem cu, tem medo! E tudo mundo, a princípio, pode ser preso injustamente um dia, inclusive um cidadão de “bem”, um pai de família, um “coxinha” exemplar etc.
É assim, adotando inteligentemente o mesmo discurso que foi usado contra os Direitos Humanos e seus defensores por décadas, que o povo finalmente entenderá que os direitos dos homens são de todos nós. E, no dia em que isso acontecer, nós, brasileiros, teremos dado um passo importante para nos tornarmos uma civilização mais avançada. Por enquanto, nos resta a barbárie cordial que tem sido nossa característica histórica.
OBS: não os chame de “coxinhas” diretamente quando abordá-los. É legal, mas não ajuda na causa.
http://www.bulevoador.com.br/2014/02/direitos-humanos-para-coxinhas-fale-da-bunda-deles-e-eles-te-ouvirao/